Esta quarta-feira, 30 de setembro, a Ordem dos Médicos do Centro emitiu um parecer a lamentar que a linha SNS 24 se encontre a encaminhar crianças e jovens “sem critério clínico” para as urgências dos hospitais. Para além disso, estes médicos pedem "um plano seguro e com medidas inequívocas", na forma de um documento oficial orientador, e alertam que a "realidade afigura-se bastante problemática".

Carlos Cortes, presidente da secção regional do Centro da Ordem dos Médicos, refere que, "no âmbito de casos suspeitos de COVID-19 em crianças e jovens, cada unidade hospitalar tem os seus procedimentos próprios, mas falta clareza nas medidas a adotar nestes casos”, tal como escreve a Agência Lusa, citada pelo "Observador".

O profissional de saúde vai mais longe e salienta que “as orientações dadas pela linha SNS 24 em relação a crianças são frequentemente incorretas do ponto de vista da referenciação, já que muitas situações não urgentes são sistematicamente encaminhadas para os serviços de urgência de pediatria”.

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Toda esta situação é problemática a vários níveis. Para além dos testes possivelmente desnecessários a crianças e jovens, as urgências dos hospitais lotadas revelam-se não só um foco de contágio de doenças (para além da COVID-19), como um peso extra para os profissionais de saúde.

"Qualquer criança com febre ou com um pico febril está a ser referenciada para os serviços de urgência, e isto é uma realidade absolutamente atroz. Temos as urgências a ficarem cheias de miúdos com situações que não são minimamente graves, e que em qualquer outra circunstância, não careciam de uma avaliação emergente", revela Joana Martins, pediatra no Hospital Dona Estefânia, à MAGG.

A especialista salienta que, no passado, "já eram referenciadas crianças de forma indevida ou com extremo excesso de zelo" para as urgências, mas a situação "acentuou-se muito no momento atual, devido à pressão de controlar cadeias de transmissão do novo coronavírus". No entanto, Joana Martins é a primeira a explicar que, "do ponto de vista clínico, é indevido".

"É uma atitude alarmista e contribui de forma exponencial e incontrolável para o burn out das equipas de profissionais de saúde. Ninguém aguenta estar a triar continuamente doenças graves no meio de tantas crianças que só estão vagamente ranhosas, constipadas ou com um pico de febre."

Para as crianças, é também uma situação "pouco prática", na visão de Joana Martins. "Uma criança está com um pico febril e leva com uma zaragatoa dolorosa, é logo testada. E devido ao curso benigno da doença nas crianças, na grande maioria dos casos [a COVID-19 não acarreta grandes riscos em crianças saudáveis], esta referenciação existe mais no sentido de controlar cadeias e isolar pessoas".

Mas a especialista alerta para a necessidade de uma revisão das políticas em relação a estes casos, uma atitude em linha com as declarações da Ordem dos Médicos do Centro. "Acho que as políticas de saúde pública têm de ser repensadas. Se isto está assim antes do inverno chegar, nem imagino o cenário quando chegarmos a novembro e tivermos o vírus da gripe a circular", afirma Joana Martins.

Recorrer ao médico assistente pode ser a melhor estratégia em casos menos graves

Tanto a febre como a tosse, sintomas mais que comuns nas crianças nesta época do ano, são também considerados suspeitos para um caso de infeção pelo novo coronavírus, o que contribui para a problemática. "É uma questão difícil. A partir do momento em que temos como critério, definido pela Direção-Geral da Saúde, febre, tosse, dificuldades respiratórias, temos de atuar sobre as recomendações. Se temos uma criança com sintomas suspeitos e compatíveis com a COVID-19, temos de encarar o caso como um potencial infetado", afirma à MAGG o pediatra Hugo Rodrigues.

No entanto, o pediatra também concorda que a realidade atual está a traduzir-se em "urgências entupidas", o que aumenta o "risco de contágio". "Devido à pandemia, as estruturas hospitalares tiveram de ser organizadas de outra forma, de modo a criar dois circuitos, o que resulta em espaços ainda mais pequenos onde as pessoas se juntam. Isto aumenta a probabilidade de passar outras doenças, não apenas a COVID-19, o desconforto e os tempos de espera".

Como alternativa, Hugo Rodrigues refere que, no caso de crianças e jovens "triados sem sinais de gravidade" pelo SNS 24, mas com necessidade de fazer o teste, este podia ser efetuado em mecanismos fora das urgências — algo que já existiu na altura do estado de emergência.

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Para além disso, no caso de existir apenas um sintoma suspeito, seja febre ou tosse, o pediatra salienta que recorrer primeiro ao médico assistente pode ser uma boa política. "Estamos a falar de um profissional de saúde que já conhece o historial da criança, se faz muitas otites, por exemplo, e em casos de menor gravidade e apenas com um dos sintomas, pode avaliar pontualmente se há necessidade de fazer o teste."

Pode aguardar que a febre do seu filho passe, mas apenas se não colocar ninguém em risco

Se tem filhos, sabe perfeitamente que o que mais acontece é acordarem com febre para, passado um dia ou até umas horas, não ser nada com eles. São as viroses que se transmitem principalmente entre crianças, em contexto de escola, e que não acarretam grandes riscos e em que só podemos controlar a febre, caso ela exista. Mas o que sempre foi comum é agora uma situação bastante mais complicada com a pandemia.

"Aguardar é sensato em qualquer infeção viral, mas a pandemia traz ao de cima questões menos confortáveis", explica o pediatra Hugo Rodrigues. "Se estamos a falar de uma criança que anda na escola, há que identificar possíveis surtos e isso condiciona logo a nossa atitude. E também há a questão de a COVID-19 decorrer de uma forma muito ligeira e sem riscos significativos para crianças saudáveis, mas representar um grande perigo para adultos de risco, idosos e pessoas com doenças crónicas."

De acordo com o especialista, no caso de uma criança que apenas apresente febre, sem mais sintomas de maior, que não tenha estado em contacto com alguém positivo para a COVID-19, não esteja na escola nem interaja com pessoas de risco, os pais podem sempre aguardar até 72 horas pela febre baixar. Por outro lado, caso existam mais sintomas ou a criança se enquadre numa das três situações anteriormente referidas, deve-se recorrer ao SNS 24.

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